Ao mesmo tempo em que a internet pode reproduzir preconceitos relacionados à idade, também pode abrir espaço para novas representações da longevidade, dando visibilidade a pessoas 60+ que continuam aprendendo, trabalhando, criando, empreendendo, amando, viajando e participando ativamente da sociedade.
Quando o preconceito aparece disfarçado
O preconceito relacionado à idade, conhecido como etarismo, nem sempre aparece de maneira explícita, ele pode estar presente em comentários aparentemente inofensivos, em piadas, na infantilização de pessoas mais velhas ou na ideia de que alguém 60+ necessariamente tem dificuldades para aprender, utilizar tecnologia ou acompanhar as mudanças do mundo.
Também é comum encontrar nas redes sociais uma representação limitada da velhice: de um lado, a pessoa idosa associada à doença, à solidão e à dependência; de outro, uma imagem romantizada de uma “velhice perfeita”, marcada por viagens, exercícios e juventude permanente.
Entre esses extremos existe a vida real.
Uma vida composta por pessoas diferentes, com histórias, desejos, dificuldades, habilidades e projetos próprios. O protagonismo muda a narrativa
Nos últimos anos, pessoas 60+ passaram a ocupar cada vez mais espaço no ambiente digital, algumas se tornaram influenciadoras e utilizam as redes para falar sobre assuntos que vão muito além do envelhecimento.
Falam sobre carreira, relacionamentos, tecnologia, empreendedorismo, cultura, comportamento, política, viagens, consumo, erros, aprendizados e planos para o futuro.
E isso é significativo.
Quando uma pessoa 60+ ocupa esse espaço, ela deixa de aparecer apenas como personagem de uma história contada por outras pessoas e passa a ser autora da própria narrativa e isso não significa ignorar os desafios do envelhecimento. Significa reconhecer que eles não definem uma pessoa por completo.
Ter 60, 70, 80 anos ou mais não significa deixar de construir futuro.
Todos participamos dessa construção
Não é preciso ser influenciador para contribuir para a forma como a longevidade é representada na internet.
Uma fotografia publicada, um comentário em uma notícia, um vídeo compartilhado ou uma história contada nas redes também ajudam a construir a imagem social do envelhecimento.
Por isso, antes de publicar ou compartilhar um conteúdo envolvendo uma pessoa 60+, vale fazer algumas perguntas:
- Estou reforçando um estereótipo ou mostrando essa pessoa em sua individualidade?
- Essa publicação respeita sua dignidade?
- Estou mostrando apenas suas limitações ou também suas capacidades?
- Estou infantilizando essa pessoa?
- Estou falando por ela quando ela própria poderia contar sua história?
São perguntas simples, mas capazes de mudar a maneira como enxergamos e representamos o envelhecimento.
O futuro já começou
O Brasil está envelhecendo.
E essa transformação demográfica também está modificando a maneira como consumimos informação, nos relacionamos, trabalhamos e participamos da sociedade. As redes sociais acompanharão essa mudança.
A questão, portanto, não é se veremos cada vez mais pessoas 60+ na internet.
A verdadeira pergunta é:
- Como elas serão vistas?
- Como um grupo vulnerável?
- Como um mercado consumidor?
- Como pessoas que precisam ser cuidadas?
- Ou como cidadãos diversos, experientes, ativos e capazes de participar das decisões e construir seus próprios caminhos?
A resposta não depende apenas das pessoas 60+, depende também de quem produz conteúdo, das empresas, da imprensa, das famílias e da sociedade.
Mudar a imagem da longevidade não é apenas uma questão de comunicação, é uma questão de respeito, inclusão e cidadania.
E talvez um dos primeiros passos seja simples: permitir que as pessoas 60+ deixem de ser apenas personagens das histórias contadas pelos outros e passem a contar, com sua própria voz, as histórias que ainda estão escrevendo.
Porque envelhecer não significa deixar de fazer parte do futuro, significa continuar vivendo nele.