Paciente desenganado pela medicina deve ocupar espaço em UTI?

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Paciente desenganado pela medicina deve ocupar espaço em UTI?

Colegas,

Ultimamente os tenho convidado a refletir sobre assuntos nem sempre agradáveis, mas que nos dizem respeito. Como sou impertinente – na verdade, um chato de galocha – volto a importunar-lhes, agora com um tema trazido à tona pelo colega José Antonio Diniz Oliveira – (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.), ex diretor da Cassi, mestre pela Faculdade de Saúde Pública da USP e doutorando na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca/Fiocruz. Atualmente administrando um pequeno plano de saúde de autogestão, Diniz é pessoa qualificada e suas opiniões merecem nossa atenção.

Em correspondência trocada com a jornalista Cláudia Collucci, da Folha de São Paulo, Diniz relata o caso de um paciente do seu plano, de 90 anos, entubado, que recebe alimentação enteral, que não tem comunicação com o mundo exterior, vivendo em estado vegetativo, internado há quase dois anos, período em que custou ao plano R$ 5 milhões. Ao fim, Diniz indaga: “quem está ganhando com pacientes sem nenhuma chance de cura, internados há meses, às vezes anos, em UTIs? Lembrando que, além de desumano, esse sofrimento inútil tem um alto preço. E, no caso da saúde suplementar, quem paga não são os planos de saúde. É o conjunto de usuários. Ou seja, sou eu, é você”.

Ele não ignora o quão cruel é falar em custos quando se trata de uma vida humana, mas entende que éuma discussãoque precisa ser enfrentada, assim como tantas outras que ameaçam a sustentabilidade dos sistemas de saúde, como, por exemplo, a falta de transparência que leva às fraudes e mágestão.

Particularmente, concordo com ele. Talvez a maior crueldade cometida contra doentes sem chances de cura internados nas UTIs, é a manutenção de uma vida que não é mais vida. Em sã consciência, ninguém quer ou merece viver assim. É óbvio quenão se cogita desligar os aparelhos que mantêm esses pacientes vivos. A legislação brasileira não admite a eutanásia. Ocorre que, em muitos casos, tais pacientes talvez não devessem estar numa UTI, que não é lugar para pessoas no fim da vida ou sem chances de cura. Para estes há outras opções, como centros de cuidados paliativos e de crônicos graves. Muitos, como o poeta Ferreira Gullar, falecido recentemente, optam por morrer em paz, longe da UTI.

Ao contrário de eutanásia, a distanásia consiste em atrasar ao máximo o momento da morte, ainda que não haja esperança alguma de cura e mesmo que isso signifique infligir ao paciente sofrimentos adicionais, que não afastam a morte inevitável. Diniz cita o padre bioeticista Léo Pessini, que define as UTIs como “as modernas catedrais do sofrimento humano”. Para Pessini, distanásia é o “prolongamento exagerado da morte de um paciente e deve ser entendida como sinônimo de tratamento inútil, atitude médica que, visando salvar a vida do paciente terminal, submete-o a grande sofrimento”, (que é maior quanto mais sofisticado tecnologicamente é o hospital). Nesta conduta não se prolonga a vida, propriamente dita, e sim o processo de morrer. “Será ético manter o paciente vivo, lançando mão de todo o conhecimento disponível, obtendo a cada momento um novo triunfo sobre a morte, a despeito de todo o sofrimento que isso pode causar?”, pergunta o bioeticista.

No plano de saúde sob sua gestão, Diniz relata que tem dez pacientes nessa situação que consumiram, ao longo de um ano, cerca de R$ 10 milhões. Desses, cinco foram a óbito nos primeiros dez meses do ano, depois do plano ter despendido mais de R$ 5,5 milhões para tentar salvá-los. Quem paga por isso não são os planos de saúde, mas toda a coletividade assistida. Resta a inevitável pergunta: quem estaria lucrando com esse gasto sem consequência? Para o gestor, pode parecer frieza falar de custos em quadros de sofrimento humano. Mas não é, porque a assistência como fim em si mesma, sem a menor possibilidade de benefício ao paciente, pode inviabilizar a proteção assistencial de toda uma coletividade.

O tema é longo e, infelizmente, este espaço não comporta um debate mais profundo. Meu objetivo é nos fazer pensar sobre como proceder se, por infortúnio, nos virmos – nós ou algum familiar – nessa dramática situação. Lembro que nossa Cassi não goza de boa saúde financeira e, penso, devemos nos esforçar para poupá-la usando-a com parcimônia e responsabilidade.

Não sei quanto a vocês; quanto a mim, já instrui minha família a mandar desligar os tubos e deixar que eu parta em paz. No mais, peço-lhes que, quando tal acontecer, não gastem com coroas de flores em minha homenagem. Primeiro, porque não mereço; segundo, porque essa grana terá melhor proveito se destinada a algum necessitado. Como diz a canção, “depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade, quero preces e nada mais”.

Aceitem meu fraternal abraço,

Antono Carlos

Fonte: Informativo nº 167 - Notícias da AFA-BH - mês de fevereiro de 2017.