O mestre Rebolo, o Banco do Brasil e o CCBB

Cultura e Lazer
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Poucos sabem, mas um dos maiores pintores paisagistas brasileiros teve estreita ligação com o Banco do Brasil através do genro, Antonio Gonçalves, um dos fundadores da AFABB-SP, que se casou com Lisbeth Rebolo, filha do artista - por Juca Varella

 Atualizado em 25/11/2020 às 06:45

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REBOLO retrato 1                          MESTRE REBOLO  

 

Francisco Rebolo Gonsales (1902-1980), filho de imigrantes espanhóis, nasceu em São Paulo e cresceu no bairro da Moóca. Sua infância humilde  o fez, desde cedo, sair em busca de trabalho. Aprendiz de decorador de paredes foi seu primeiro emprego, aos 14 anos. Aos 16, começou como jogador de futebol. As tintas e a bola, duas paixões que levaria consigo para o resto da vida.

Segundo Antonio Gonçalves, curador do acervo do artista e um dos fundadores da AFABB-SP,  “Rebolo tinha três vocações bem definidas, e foi bom em todas: futebolista, empresário e artista, nesta ordem, que se entrelaçaram durante toda sua vida”.

 

 

O Jogador de Futebol - Os pincéis e as tintas o colocaram em contato com o futebol logo cedo. A microempresa que tinha acabado de abrir foi contratada para pintar as paredes de uma sub sede do Corinthians, no centro de SP.  Lá ficaram sabendo que ele gostava e já jogava futebol pela Associação Atlética São Bento e o convidaram a fazer um teste. Foi contratado em seguida. Por cinco anos jogou na extrema-direita do Corinthians, de 1922 a 1927, e por três vezes foi Campeão Paulista, além de conquistar outros torneios.

Na década de 1930, devido aos esportes náuticos que o clube desenvolvia no Rio Tietê, Rebolo agregou ao símbolo do Corinthians remos, âncora e boia, dando nova roupagem ao escudo da agremiação que vigora até hoje. 

 

REBOLO COR

 Rebolo no Corínthians e com o emblema remodelado - Imagem: Acervo Histórico Corínthians

 

O Empresário - Aos 23 anos Rebolo abriu sua própria empresa de pintura e decoração de paredes que foi fechada somente com sua morte, em 1980. Sua consciência social o fez manter a empresa aberta para garantir o sustento de alguns funcionários remanescentes, mesmo não precisando mais dela, pois já era um renomado artista. "A fama de seu nome garantia trabalho certo aos funcionários da empresa”, revela Gonçalves e complementa com o que o sogro dizia: “Se eu parar com a empresa ninguém mais vai pedir serviços a eles”. E assim foi. Sua empresa só foi encerrada após sua morte, em 1980.

A maneira como conduzia seu pequeno negócio criado nos anos 1920 ,e devido à sua visão de micro empresário, no início da década de 1970 foi declarado, em um congresso de pequenos empresários, Patrono da Pequena Empresa.

 

O Artista - Rebolo abraçou a carreira artística em 1934, pouco antes de deixar o futebol. Nas palavras de Quirino da Silva no Diário de São Paulo, em fevereiro de 1959: "o aplaudido extrema-direita morre e nasce o pintor". Determinado em sua decisão, alugou uma sala no centro de São Paulo, no Edifício Santa Helena, que ficava na divisa entre a Praça da Sé e a antiga Praça Clóvis, e demolido na década de 1970 para a construção da estação Sé do Metrô. Lá instalou seu escritório e ateliêr, espaço que entraria para a história da arte no Brasil.

A opção do mestre em mergulhar no mundo das artes não foi somente com pincéis e tintas. Segundo Gonçalves “ele foi um ativista cultural e tinha posições políticas bem definidas nos assuntos ligados às artes. Foi um dos fundadores do Sindicato dos Artistas Plásticos, na década de 1930 e ajudou, nos anos 1940, a criar o Clube dos Artistas e Amigos da Arte, o ‘Clubinho’ ”.

Sua dedicação e talento o levaram ao reconhecimento e à fama, sem jamais perder a ternura e a humildade. Em quase todos os museus de importância no Brasil existem obras de Rebolo. No Senado Federal, em Brasília, tem obra do artista. O MoMA, em Nova York, um dos maiores museus dos Estados Unidos e do mundo, tem obra do mestre em seu acervo, doada na década de 1940 em um esforço mundial de artistas contra o nazismo.

REBOLO GSHAlguns membros do Grupo Santa Helena. Da esquerda para a direita: Rebolo, Alfredo Volpi, Paulo Rossi Ossir, Nelson Nóbrega e Mário Zanini

 

Grupo Santa Helena – O escritório da pequena empresa de Rebolo no Edifício Santa Helena, entre as praças Sé e Clóvis, acabou se transformando em ponto de encontro de jovens artistas da época, entre eles: Alfredo Volpi (1896-1988), Aldo Bonadei (1906-1974), Clóvis Graciano (1907-1988), Mário Zanini (1907-1971) e outros.  Sem saber ele havia criado o “co-working” de hoje, um espaço compartilhado que começou a ser frequentado por artistas e intelectuais de todo o Brasil e até do exterior. Jorge Amado, por exemplo, era um dos frequentadores. O grupo que se reunia naquele ponto de encontro acabou sendo chamado pelo nome do prédio: Grupo Santa Helena.

 

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Palácio Santa Helena na década de 1930, na divisa entre a Praça Clóvis e a Praça da Sé

 

O Grupo teve muita importância dos anos 1930 até os anos 1950, onde os encontros e atividades dos artistas eram bastante intensos. Um ponto de encontro e de geração de ideias que teve grande importância na História da Arte no Brasil.

Em 1971 houve um projeto de se recolocar em foco o Grupo Santa Helena. No encontro, realizado na casa de Rebolo no Morumbi, estiveram presentes os antigos integrantes, ocasião em que foi redigido um texto, assinado por todos, com o compromisso de se manter vivo o espírito do Santa Helena:

 

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  O reencontro, em 1971

 

Empresa apoiando cultura – Lisbeth Rebolo lembra: "ele sempre foi um e incentivador de ideias que pudessem apoiar as artes de alguma forma, encorajando artistas jovens e iniciantes, patrocinando pesquisas, enfim, algo que lançasse alguma semente cultural. Onde houvesse algum espaço de fomento à arte ele participava. ”

Naquela ocasião a ideia de que grandes empresas deveriam investir mais no incentivo às artes já estava fermentando nos pensamentos de Rebolo, muito embora grandes industriais do passado já houvessem investido em museus e na Bienal de Arte. Os Matarazzo e Assis Chateubriand, nesta ordem, foram exemplos.

“O forte carisma de Rebolo aglutinava pessoas em torno dele e de suas ideias. Isso estava em seu DNA. Foi a criança pobre que lutou para colocar a cara no mundo. Ele era um abençoado e um grande aglutinador na história da arte brasileira”, relembra Gonçalves. 

 

Rebolo e o Banco do Brasil - A militância no movimento estudantil de Antonio Gonçalves (leia texto abaixo) no final dos anos 1960, quando era presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Ciências Sociais da USP, na famosa Rua Maria Antônia, no bairro de Higienópolis, cruzou o caminho de Lisbeth Rebolo, que cursava a mesma faculdade, e começaram um sério relacionamento. Pouco tempo depois, em 1968, Gonçalves, contrariando o vanguardismo que viviam na época, pediu a Rebolo a “mão” de Lisbeth em casamento. Menos de um ano após terem se conhecido, se casaram.  

A afinidade com o genro logo se transformou em fortes laços. Gonçalves, logo depois de seu casamento com Lisbeth, viria a ser conselheiro na administração da carreira do já consagrado pintor, organizando suas finanças, agenda, exposições e demais atividades artísticas do sogro sem, contudo, deixar de lado sua ascendente carreira no Banco do Brasil. 

Em 1973, em homenagem aos 70 anos de Rebolo, Gonçalves organizou a primeira e importante retrospectiva do artista. Foram 360 obras expostas no MAM-Museu de Arte Moderna de São Paulo. Após a morte de Rebolo, em 1980, vítima de enfarto, Gonçalves criou o Instituto Rebolo para organizar o acervo e manter viva a memória do artista.

A estreita ligação entre Rebolo e Gonçalves, que já era um estimulador de atividades culturais e aglutinador de pessoas em torno das artes em geral, culminou em estabelecer uma relação do artista com o Banco do Brasil e suas associações.

 

REBOLO FUTEBOL

"Futebol" - 1936

 

Rebolo na AABB - Em meados dos anos 1970, Gonçalves era diretor cultural da AABB-SP, que promovia anualmente um famoso e comentado Salão de Artes Plásticas, no qual funcionários exibiam seus talentos.

Gonçalves convidou e Rebolo aceitou o convite para participar do júri do Salão. A participação do consagrado artista, ainda com os ecos de sua exposição do MAM em 1973, alvoroçou os meios culturais do Banco do Brasil.

Dirigentes de entidades, lideranças ligadas ao meio cultural e do próprio Banco estiveram presentes e compartilharam das ideias de Rebolo acerca de sua política de incentivo às artes em geral, focada na visão de que as grandes empresas deveriam investir mais no setor artístico.

Com a grande repercussão que sua presença estava tendo naquele salão de arte da AABB, pediu que Gonçalves redigisse um artigo, assinado por ele, Rebolo, no qual sugeria que as empresas dessem mais atenção às questões culturais e que via, com muito bons olhos, apoios que objetivassem o desenvolvimento das artes e da cultura no Brasil.

O artigo foi publicado no Catálogo do Salão de Artes Plásticas e teve forte repercussão, principalmente entre os dirigentes do BB com quem tivera contato durante o badalado evento.

Mais uma vez Rebolo estava se antecipando e enxergando ao longe o que viria a ser a Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, promulgada em 1991. E mais, tinha ajudado a gerar, sem saber, o primeiro embrião do CCBB-Centro Cultural do Banco do Brasil, que viria a ser idealizado em 1986, durante a administração do presidente do BB, Camillo Calazans, e inaugurado no Rio de Janeiro em 1989. Em abril de 2001 o CCBB de São Paulo também abre suas portas.

“Podemos dizer que naquele momento [no Salão de Artes Plásticas da AABB] Rebolo defendeu a tese, fermentou a ideia e jogou água no moinho da criação do Centro Cultural do Banco do Brasil”, relembra Gonçalves. Infelizmente o mestre não viveu para ver sua visão sendo concretizada.

 

REBOLOS OBRAS

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 REBOLO INSTITUTO

 O INSTITUTO REBOLO 

 


 

ANTONIO GONÇALVES, REBOLO E O BB

Não podemos falar do mestre Rebolo sem falar de Antonio Gonçalves, um incentivador das entidades do BB e um dos fundadores da AFABB-SP - sua matrícula na entidade leva o número 003 – e de seu casamento com Lisbeth Rebolo, filha do artista, em 1969, em meio ao fervoroso movimento estudantil que agitava o Brasil em plena ditadura.

Antônio Gonçalves, nascido em 1944 em Barretos, hoje com 76 anos, tomou posse no Banco do Brasil em 1963 na agência Brás, zona leste da capital paulista. Se aposentou precocemente, em 1987, para seguir sua vocação de aglutinador político-cultural. Atividade que desenvolve até hoje.

Da agência Brás pensou em ir para o Rio de Janeiro, trabalhar na Direção Geral, mas acabou optando pela agência Centro SP.  “Foi a melhor coisa que eu fiz porque lá era onde as coisas aconteciam. Era a ‘fornalha’ do Banco. Lá tivemos uma posição pioneira nas mudanças de padrões e comportamentos, como foi a entrada das mulheres no BB. Foi um avanço. As mulheres contribuíram com vários pontos a mais para a verdade, para a relação entre os sexos e a oportunidade para todos. Quando as primeiras mulheres entraram não tinha nem banheiro para elas. O acolhimento social também foi complicado”, lembra Gonçalves.

 

REBOLO gonçalvesAntonio Gonçalves, em sua casa

 

No BB teve uma carreira intensa e de muitas realizações, embalado em uma época em que o Banco incentivava novas ideias. Atuou sempre em segmentos diferentes dos objetivos-fim do setor bancário, se destacando mais em atividades ligadas às pessoas e à formação do corpo de funcionários. Por muitos anos foi professor do DESED, núcleo de formação do BB, e acredita ter ministrado aulas a mais de 20 mil funcionários durante sua carreira.

Foi o mentor, na década de 1970, da abertura de espaço para os Menores Aprendizes na agência Centro de São Paulo. A ideia deu tão certo que se espalhou pelo Brasil rapidamente. O programa ajudou imensamente na formação profissional e social de milhares de jovens, inclusive deste que lhes escreve.

Posteriormente voltou seus olhos e sua capacidade de agregar pessoas em torno de ideais comuns para as entidades do BB. Foi conselheiro da PREVI; diretor estadual-SP e presidente do Conselho Deliberativo da ANABB; diretor da AABB e um dos fundadores e diretor da AFABB-SP. Fora do Banco, foi presidente da Associação dos Sociólogos de SP, diretor do Sindicato das Pequenas Empresas de SP e outras.

 

REBOLO FUNDAAO PBGonçalves com a Ata de Fundação da AFABB, em agosto de 1989. Foto: Juca Varella

 

Nas entidades do BB sempre buscou atuar nas áreas culturais e foi defensor da ideia de que as associações de funcionários precisavam ser autossustentáveis. Acreditava que o apoio que vinha da direção do BB não seria eterno, o que viria a se confirmar depois.  A intermediação na venda de seguros foi uma das saídas para suprir financeiramente as entidades quando o apoio do banco cessou.

 

Movimento estudantil – Sua inclinação política já tinha se manifestado bem antes, ainda em Barretos. Dos 16 aos 18 anos, foi diretor do Sindicato dos Bancários daquela cidade e um dos mais novos dirigentes sindicais do Brasil. Era office-boy do Banco da Lavoura, que depois virou Banco Real.

Em São Paulo Gonçalves conseguiu conciliar sua atuação no banco com a militância no movimento estudantil dos anos 1960, onde conheceu sua esposa Lisbeth Rebolo, e com quem se casou em 1969, resultando em uma estreita parceria com o sogro artista.

Ainda na época das mobilizações estudantis, foi presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Ciências Sociais da USP, que ficava na Rua Maria Antônia, vizinha à Universidade Mackenzie, local de tantos conflitos entre as duas instituições. Em 1969 foi preso na Operação Bandeirantes, logo depois de seu casamento com Lisbeth, e quase lhe custou o emprego no BB.

 

Lisbeth Rebolo - A convivência desde a tenra infância com a arte do pai e de seus amigos artistas, levaram Lisbeth Rebolo a trilhar o mesmo caminho, não através de pincéis e tintas, mas através da pesquisa. 

“A presença de um artista na família é algo muito forte. Somos levados a esse contexto com muita força e vem o interesse em saber mais, não só sobre a carreira do pai, mas também o contexto em que ele trabalha: a cultura e as artes. Na verdade, por trás disso, vem também um autoconhecimento”, explica Lisbeth. E complementa: “Eu tive o privilégio de crescer no meio de pessoas que falavam sobre arte e faziam arte e não só conheci os artistas como também as suas obras”.

 

REBOLO lisbethfotoLisbeth Rebolo Gonçalves e obras do pai

 

Lisbeth é doutora em Sociologia da Arte pela USP, foi conselheira do Museu de Arte Moderna-MAM e da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Por duas vezes ocupou o cargo de diretora do Museu de Arte Contemporânea-MAC da USP. Foi presidente da Associação Brasileira dos Críticos de Arte-ABCA e atualmente é presidente da Associação Internacional dos Críticos de Arte-AICA, entidade presente em 95 países e com cerca de 5 mil associados onde, no momento, concorre ao segundo mandato.*

Em setembro último Lisbeth participou de uma live com o curador e galerista Max Perlingeiro, onde descreve em detalhes a vida artística do pai e sua relação com o Grupo Santa Helena. Clique no link abaixo. Vale a pena assistir. 

* Após a publicação desta matéria, Lisbeth Rebolo foi reeleita para a presidência da Associação Internacional dos Críticos de Arte-AICA para o triênio 2021-2023, com 54% dos votos, suplantando outros dois candidatos. 

 

REBOLO LISBETH

Clique para assistir à live de Lisbeth Rebolo

 

  

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